Alter ego

Diferentes, sim. Desrespeitadores, nunca

 

 

Lá em casa, as diferenças entre homem e mulher sempre se fizeram sentir. Ao jantar, em regra, era ele o primeiro a servir-se, sem que isso evidenciasse qualquer sinal de superioridade. É verdade que sempre foi ela quem tratou da louça, da roupa, da comida. Enquanto isso, ele regava o jardim, cortava a relva, lavava o pátio. E, volta e meia, lá tinha de ir a correr comprar o sal, a farinha ou o azeite, que faltavam à última da hora para o cozinhado que estava ao lume.

Diferentes, sim. Complementares, sempre. Desrespeitadores, nunca. Cresci numa família assim. Ainda não se ouvia falar em desigualdade de género – eu, pelo menos, não me recordo -, mas, bem vistas as coisas, havia por ali diferenças entre homem e mulher. Tantas diferenças quanto respeito mútuo.

São estas memórias que tornam ainda mais difícil para mim encarar esse número atroz propalado nos meios de comunicação social portugueses. Desde o início do ano, já foram assassinadas 10 mulheres em contexto de violência doméstica. Isto numa altura em que o já de si curto mês de Fevereiro ainda está a uns bons dias de terminar.

“A maioria perdeu a vida em casa, de forma violenta, por companheiros, ex-companheiros e familiares”, escreve a Patrícia Carvalho, no Público.

Assusta-me, acima de tudo, essa ligeireza com que se tira a vida a alguém. Um acto bárbaro que não consigo compreender, imaginar sequer. Especialmente quando é perpetrado por pessoas que estão (ou estiveram) unidas por um sentimento que devia ser maior do que qualquer ódio, imperfeição ou falha. O amor, claro está.

Sei bem que a violência doméstica não atinge apenas as mulheres – homens, crianças e idosos são, igualmente, vítimas – e também sei que há por aí gente capaz de inventar agressões que não existiram apenas para tentar sacar mais uns trocos em divórcios e afins. Mas hoje, e talvez durante muito mais dias, não consigo deixar de pensar nestas DEZ mulheres.

Tenho uma réstia de esperança de que esta forte concentração de casos em tão pouco tempo tenha sido apenas uma INFELIZ coincidência, um mau início de um novo ano. Assim seja.

 

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