ilustres convidadas

O que é essa coisa chamada amor-próprio?

Laura Alho *

 

Diz-se que nos devemos amar primeiro e acima de todas as coisas. Todavia, a maior dificuldade do ser humano reside em amar-se a si próprio sem se tornar arrogante, pretensioso ou egoísta, achando-se que é o dono da verdade e a última pérola do oceano.
Diz-se que devemos saber o que queremos da vida e escolher bem as nossas companhias. O problema é que a maior parte de nós não faz a mínima ideia do que quer, e as companhias de hoje, amanhã já deram lugar a outras.
Diz-se que não precisamos de muito para sermos felizes. Mas como? Somos eternos insatisfeitos à procura de mais, confundindo quantidade com qualidade, seja de bens materiais ou pessoas.
Diz-se que devemos aproveitar a vida. Sem guiões, sem medo de errarmos, sem ligarmos aos outros. Mas o que mais fazemos é esgotarmo-nos com coisas que não nos levam a lado nenhum, errarmos por opção consciente e ignorarmos precisamente os sentimentos dos outros. O amor-próprio é auto-suficiente mas não se esgota em nós. Se formos bons connosco, sê-lo-emos também com os outros, nunca os desvalorizando.
Ter amor-próprio é uma espécie de lema nos dias de hoje. Só que há um paradoxo nisso, porque proclamamos tê-lo apenas quando ele é ferido ou quando nos comparamos com alguém que invejamos secretamente. Aí, sentimos necessidade de chamar a atenção e de nos auto-afirmarmos. Com o intuito de mostrarmos aos outros que somos felizes, fazemos e dizemos o que não é autêntico. Isso não é amor-próprio, é a ausência dele. O amor-próprio não vive de brilhos nem de exposições que esperam um retorno social, nem tão pouco se preocupa com o que outros fazem ou deixam de fazer. O amor-próprio existe independentemente dos outros. Não precisa de bajulações nem de auto-afirmações constantes. E jamais pode andar de mão dada com a inveja ou a falta de carácter. Porque tê-lo, verdadeiramente, é estar seguro de si e não precisar de fazer comparações com ninguém. É saber exactamente o lugar que ocupamos no mundo e na vida das pessoas. A falta dele cria-nos buracos no coração e na alma e faz-nos seres frágeis e em constante sofrimento. Por não o termos, delegamos a responsabilidade da sua ausência nos outros e queremos que todos se moldem a nós, à nossa maneira de ser e de pensar. Queremos ser um exemplo de integridade, com telhados de vidro.
Perdemos muito tempo a tentar mudar alguém, e mais ainda à espera que essa pessoa mude. Pretendemos moldá-la até ela corresponder às nossas exigências e colmatar as nossas necessidades. Esperamos que ela saiba ler nas entrelinhas e se esforce para ser o(a) companheiro(a) ideal do nosso reino. Mas nem toda a gente nasceu com competências para reinar em conjunto e, se formos uma dessas pessoas temos duas opções: ou aprendemos a fazê-lo ou simplesmente gostamos de não ter essa responsabilidade e mantemo-nos na corte a fazer o que a maioria faz.
Ninguém muda ninguém. As pessoas mudam pela auto-percepção, porque se tornam mais sábias e selectivas, ou mudam porque sofreram e dão valor ao que realmente importa. As pessoas mudam por vontade própria, porque ampliam a sua consciência e percebem quando chega a hora de crescer e amadurecer, encarando a vida como uma oportunidade séria de construir um legado.
Não podemos exigir nada de ninguém. Só podemos exigir de nós próprios e nem isso o fazemos. Olhamo-nos ao espelho e sentimo-nos os donos do mundo, mas na primeira vicissitude, reduzimo-nos a nada.
Ter amor-próprio é conhecer o nosso valor e saber que somos mais do que aquilo que os outros acham que somos. É respeitarmo-nos e querermos viver com dignidade. É saber juntar todos os bocadinhos do coração partido e colá-los com carinho, de todas as vezes que ele cai, seja por que razão for. É saber que todos os dias só há uma pessoa no mundo que escreve a nossa história: nós. As outras acrescentam e, se não o fazem, são prescindíveis. Não podemos ter a pretensão de agradar a todos, mas devemos ter a missão de fazer o bem a todos!

Mas, afinal, o que é essa coisa chamada amor-próprio?
É o bálsamo vitalício que garante que todas as feridas são curadas com o objectivo máximo de sermos felizes dentro do nosso corpo e, sobretudo, satisfeitos com a pessoa que somos e que nos tornamos, diariamente. Haverá sempre alguém que nos ama, tal como somos. Os outros são apenas personagens a cumprirem a efemeridade dos seus papéis.

Vivemos em gaiolas, julgando que estamos livres. Ter amor-próprio é ser livre no sítio mais importante do universo: dentro de nós.

 

* A Laura Alho é escritora, investigadora académica e professora universitária. Uma verdadeira mulher do leme que nunca deixa de arranjar tempo para nos brindar com as belas mensagens e pensamentos, que vai partilhando no seu blog.

 

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