Alter ego

A ti, que devias ser eterna

Já passaram mais de 10 anos, mas aquele dia continua bem presente na minha memória. E, ao contrário do que é habitual em mim, nem me lembro da data exacta (os meus amigos dizem que sou a campeã no que respeita a fixar datas). Sei que era Inverno – pelo menos, estava frio -, mas apenas isso.

A médica que te estava a seguir não esteve com falinhas mansas e foi directa ao assunto, colocando todos os cenários em cima da mesa. Até os piores, aqueles que eu achava que apenas atingiam os outros. Inocência da idade – se bem que já devia ter uns vinte e muitos anos -, havia cenários que eu nunca ousei sequer equacionar.

Nesse dia, e em todos os outros que se seguiram – naquele vaivém para o hospital, a rezar para tudo corresse bem -, tive de admitir o que até então sempre me recusara a encarar: tu não eras eterna. Afinal, estavas sujeita, tal como todas as outras pessoas, à vontade do destino. Também tu podias quebrar e eu nunca tinha sequer colocado essa possibilidade.

A batalha foi ultrapassada, o sol voltou a brilhar, mas nunca mais consegui arrancar esse medo de mim. Porque, lamentavelmente, não és eterna. E todas as mães – e pais também – deviam ser eternas, viver para sempre, estar sempre ao nosso lado.

Neste dia que te é consagrado – a ti e a todas as mães do mundo – só quero pedir ao universo que, perante a impossibilidade de te ser concedida a eternidade, que te mantenhas por aqui durante muito tempo. O maior número de anos possível.

Pode soar a possessividade, mas é o que sinto. Talvez por apenas conhecer um dos lados da moeda (ser filha), quem sabe?

Porque não há amor e amparo iguais ao de mãe (e ao de pai). Porque por mais que ganhemos asas para voar, não há sensação melhor do que a que sentimos ao voltar ao ninho. Porque há uma réstia de cordão umbilical que permanece muito para além da nossa vida ao mundo.

Por tudo isto e muito mais, as mães deviam ser eternas.

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