ilustres convidadas

A ti Pedro…

Cátia Barreira*

Quando se fala em ser diferente daquilo que é convencional, toda a gente pensa que é sempre mais difícil em meios pequenos como o “Trás-os-Montes Profundo” (assim é muitas vezes denominado o meu Reino Maravilhoso por quem não sabe o que diz), com mentalidades fechadas e pouco viradas para a liberalização.
A história do Pedro Matias contraria realmente isso. Tem 17 anos, vive numa aldeia de Alfândega da Fé, é transexual e toda a gente o apoia. Isto sim deixa-me orgulhosa da minha gente, dos meus conterrâneos.
Não ergue bandeiras de revolta e reivindicação, opta pela forma mais inteligente de procurar absorver o máximo de conhecimento sobre o assunto e ajudar as pessoas a entender o que é a transexualidade. É presidente da Associação de Estudantes da sua escola pelo segundo mandato consecutivo e tem a ambição de no próximo ano ir para a faculdade. O Pedro é um transmontano cheio de garra, não se fica por aquilo que a sociedade gostaria que ele fosse, luta até conseguir os seus objectivos. Está a um passo, quando completar os 18 anos, de realizar o seu objectivo, fazer a cirurgia para mudar de sexo e mudar o nome.
O que tem, na minha opinião, maior valor, além do Pedro ser um valente transmontano, são os pais dele, que não são o dr. X ou a engª y. São pessoas que, sem formação académica, têm a formação melhor que alguém pode ter, o respeito e amor pelo seu filho.
É quando conheço estas pessoas e percebo que tenho a honra de conseguir publicar e partilhar estas histórias convosco que vejo que adoro a minha profissão (jornalista). Gostava que esta história servisse de exemplo para tantas pessoas que passam pelo mesmo mas com o medo de toda a estigmatização social acabam por se enclausurar e tentar viver uma vida que não é a delas.
Com a história deste jovem aprendemos que não podemos ficar amorfos às adversidades da vida, ter medo de sermos nós próprios é assumir a fraqueza da nossa existência, cingindo-nos a uma vida sem felicidade. Eu acredito piamente que nascemos para ser felizes e isso depende apenas de nós.
Termino este artigo pegando numa das coisas que o Pedro me disse na entrevista que lhe fiz: “para que a sociedade veja este tema com naturalidade temos de ser nós transmiti-la”.
Dedico-lhe este simples artigo pois já me mentalizei que não posso mudar o mundo (embora gostasse) mas posso ajudar, fazendo alguma coisa pelo próximo, começando por aceitá-lo e respeitá-lo, seja aqui ou na China. Resta-me desejar-lhe toda a sorte do mundo.

* A Cátia Barreira é, entre muitas outras coisas, directora da Revista Raízes. Uma transmontana de gema que é, também, uma verdadeira mulher do leme. Este artigo é uma adaptação do editorial que escreveu para edição de Fevereiro da Raízes, na qual deu a conhecer a história de Pedro.

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